MOTIVAÇÃO DE ATLETAS BRASILEIROS DE FUTEBOL AMERICANO

Victor Cavallari Souza – sicólogo do Núcleo SCORE. Mestre em Ciências pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/SP (USP). E-mail: [email protected]
Renan Cardoso da Silva – Psicólogo do Núcleo SCORE. Aluno de Mestrado na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/SP (USP). E-mail: [email protected]
Ricardo Marinho de Mello de Picoli – Psicólogo do Núcleo SCORE. Aluno de Mestrado na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/SP (USP). E-mail: [email protected]
Para citar este artigo (APA): Souza, Silva & Picoli (2015) Motivação de atletas brasileiros de futebol americano. Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires) 20 (211). 1-9.

RESUMO

No Brasil, o Futebol Americano (FA) é a modalidade esportiva com maior crescimento no número de praticantes e espectadores. Equipes nacionais investem na preparação esportiva dos atletas e na montagem de comissões técnicas especializadas e multidisciplinares. Nesse contexto, a compreensão de aspectos psicológicos envolvidos na prática esportiva assume um papel importante, tanto no que tange a elaboração de estratégias para incentivar a participação, adesão e manutenção da prática esportiva, quanto para compreender como esses aspectos podem influenciar o desempenho dos atletas. Assim, o objetivo do estudo foi identificar e caracterizar os processos motivacionais para a prática do futebol americano em uma equipe brasileira de alto rendimento não profissional. Para avaliação dos 58 jogadores participantes do estudo, foi elaborado o Inventário de Self Tático e Físico adaptado para o FA que consiste em um questionário de avaliação com questões ligadas a percepção de rendimento físico, tático, sobre aspectos motivacionais e razões para a prática esportiva. Os resultados indicaram que as principais motivações dos atletas estão relacionadas ao gosto pela modalidade, diversão obtida na prática esportiva e a motivação para a competição. 74% dos jogadores estavam insatisfeitos com seus níveis de competição ao passo que a maioria demonstrou disposição e interesse para treinar aspectos físicos, táticos e técnicos da modalidade.
Palavras-chave: Futebol americano, Motivação, Psicologia do esporte.

ABSTRACT

In Brazil, Football is the most growing sport in people participation and audience. National teams invest in sports preparation of athletes and multidisciplinary specialized technical committee. In this context, comprehension about psychological factors involved in the sport practice is crucial, whether in strategies to encourage participation, adhesion and maintenance of physical activity as well as to understand how these psychological factors can influence the athletes’ performance. The aim of this study was identify and characterize motivational process to Football practice in a high-performance amateur Brazilian team. A Self Tactical and Physical Inventory was created specifically to the Football to evaluate the 58 athletes of this study. This inventory is an assessment questionnaire with questions about their self perception of physical/tactical performance, motivational aspects and reasons to practice Football. The results showed the main motivational aspects were related to passion to Football, fun with the practice e motivation to competition. 74% of the players was unsatisfied with their competition level, while the majority showed disposition e interest to training physical, tactical and technical aspects of the Football
Keywords: Football, Motivation, Sport Psychology.

INTRODUÇÃO

O Futebol Americano (FA) é uma modalidade esportiva muito popular em todo mundo, principalmente nos Estados Unidos da América (EUA), onde surgiu e tornou-se o esporte mais popular do país, concentrando a preferência de 42% dos norte americanos (32% do futebol profissional e 10% do futebol universitário).
Dados econômicos e de audiência evidenciam o tamanho dessa modalidade esportiva nos EUA e o potencial do esporte para seu crescimento ao redor do mundo. Segundo Baade e Matheson (2000), a NFL (National Football League) movimentou no ano 2000 mais de 7 bilhões de dólares, e apenas o jogo final do campeonato, o Super Bowl, movimentou mais de 670 milhões de dólares. Segundo a revista Forbes, das 50 equipes esportivas mais valiosas do mundo, 30 pertencem a NFL. Em 2014, a média de público nos estádios da NFL foi de 64.500, sendo considerada a maior média de público de uma modalidade esportiva do mundo. Já a média de audiência televisiva do torneio foi de 150 milhões de espectadores.
No Brasil, o Futebol Americano é a modalidade esportiva com maior crescimento no número de praticantes e espectadores nos últimos 5 anos. Atualmente existem mais de 130 equipes no país que jogam com equipamento completo, sendo essas distribuídas em ligas regionais e nacionais. Segundo Rodrigues, Costa, Pedroso e Silva (2014) o crescimento do FA no Brasil resultou na fundação da Associação de Futebol Americano do Brasil (AFAB), reconhecida pelo Ministério do Esporte, e de outras ligas e federações estaduais que representam os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal, Mato Grosso, Paraíba, Amazonas, Pernambuco e Ceará. Ademais, a criação da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA) contribuiu para o desenvolvimento da modalidade no cenário nacional.
Nos últimos 3 anos, a ESPN, detentora dos direitos de transmissão da NFL no Brasil, estima que a audiência tenha crescido 800%, evidenciando o crescimento dessa modalidade no país. Outro fato que evidencia esse crescimento foi a participação, em 2015, da seleção brasileira de Futebol Americano na Copa do Mundo realizada nos EUA, onde obteve a sexta posição, conquistando uma vitória e sofrendo duas derrotas.
O aumento da exposição da modalidade no país resultou também no aumento do interesse para a prática do Futebol Americano. Consequentemente, o nível técnico dos jogadores tem sido aperfeiçoado ao ponto de equipes nacionais investirem na preparação esportiva dos atletas trazendo treinadores e atletas estrangeiros, montando uma comissão técnica especializada e multidisciplinar e, também, oferecendo estruturas satisfatórias para a prática da modalidade.
Nesse contexto, a compreensão de aspectos psicológicos envolvidos na prática esportiva assume um papel importante, tanto no que tange a elaboração de estratégias para incentivar a participação, adesão e manutenção da prática esportiva, quanto para compreender como aspectos psicológicos podem influenciar o desempenho dos atletas de alto rendimento não profissionais de FA no Brasil.
Especificamente, os processos motivacionais assumem maior importância nesse contexto de esporte amador. Fatores motivacionais que levam à adesão e à manutenção da prática de atividade física e de uma modalidade esportiva, desde a prática por lazer e recreação até o alto rendimento tem sido investigado por psicólogos do esporte.
Weinberg e Gould (2008) definem que a motivação é um processo que coordena, dirige e define a intensidade de esforço dos seres humanos para uma atividade. Sendo assim, é importante que se identifique os fatores intervenientes no processo motivacional de atletas, sejam eles de iniciação, sejam de alto rendimento, para quaisquer idades. Para Machado, Campbell, Barbosa, Bartholomeu e Silveira (2012) a motivação é o resultado da interação entre o efeito ambiental (o contexto no qual o atleta está inserido) e os traços de personalidade que possui.
Cruz (1996) identifica alguns dos motivos que levam para a prática esportiva: Diversão, bem-estar, estar com amigos/fazer amigos, aperfeiçoamento de competências físicas e habilidades esportivas, desenvolver/manter a forma física, vivenciar os desafios da modalidade praticada e alcançar o sucesso no contexto competitivo.
Frontelmo e Ribeiro (2006) destacam a importância de se realizar estudos buscando investigar a motivação para a prática do FA no Brasil que, segundo os autores, é ainda uma modalidade não bem vista em nossa sociedade e sem retorno financeiro. Apesar dos autores focarem o estudo na prática do Beach Football, uma variação do FA, eles evidenciam a necessidade de adaptação que os praticantes da modalidade tiveram que realizar para continuar praticando a modalidade, o que pode representar a motivação desses indivíduos.
Portanto, a compreensão dos fatores motivacionais de atletas de FA no Brasil contribui para o desenvolvimento da modalidade no país, visto que sua prática ainda enquadra-se no contexto de esporte amador, mesmo que de alto rendimento. Desse modo, esses processos tornam-se fundamentais para o fortalecimento e crescimento da modalidade no cenário nacional.
Assim, o objetivo do estudo foi identificar e caracterizar os processos motivacionais para a prática do futebol americano em uma equipe brasileira de alto rendimento não profissional.

MÉTODO

Participantes
Participaram do estudo 58 jogadores do sexo masculino com idade entre 17 e 42 anos (média de 26,71 anos, com desvio padrão de 4,5 anos) de uma equipe de futebol americano de alto rendimento do interior de São Paulo. Os jogadores tinham em média 2 anos de prática na modalidade. A equipe, durante a coleta de dados, estava disputando um campeonato em nível estadual.
Materiais

Para avaliação dos jogadores, foi elaborado o Inventário de Self Tático e Físico adaptado para o FA. Este instrumento consiste em um questionário de avaliação que contêm questões ligadas a percepção de rendimento físico, tático, sobre aspectos motivacionais e razões para a prática esportiva.
Procedimento
O Inventário de Self Tático e Físico foi aplicado durante os treinamentos da equipe. A coleta de dados foi organizada em 3 sessões num período entre dois jogos da primeira fase do campeonato em andamento. Os jogadores responderam ao instrumento individualmente em local reservado no centro de treinamento da equipe.
Análise de dados

As respostas dos atletas foram calculadas e, a partir desse quadro, foram realizadas análises descritivas dos dados, indicados por porcentagens de respostas.

RESULTADOS

Inicialmente os participantes do estudo foram divididos em dois grupos: novatos e experientes. Os resultados encontrados após uma primeira análise não indicaram nenhuma diferença significativa entre os grupos. Sendo assim, optou-se por considerar os dados de todos os 58 jogadores como somente um único grupo.
As respostas ao inventário indicaram que as principais motivações dos atletas estão relacionadas ao gosto pela modalidade, diversão obtida na prática esportiva e a motivação para a competição (Figura 1). Ademais, fatores ligados aos benefícios para a saúde a partir da prática esportiva e o estabelecimento de vínculos também obtiveram altas taxas de respostas.

Os dados também mostram que para menos de 10% dos atletas, o reconhecimento social é um dos principais motivos para a prática do FA, ou seja, a grande maioria dos atletas não considera esse fator como preponderante em sua adesão e continuidade na prática esportiva.
Além de questões objetivas, que delimitam as respostas dos atletas, o instrumento continha uma questão aberta optativa sobre a motivação dos jogadores. As respostas para essa questão estiveram ligadas a fatores grupais como a identificação com os colegas de equipe e ao planejamento de uma carreira esportiva. Participantes mostraram a motivação para a profissionalização no esporte.

DISCUSSÃO

Os resultados chamam a atenção para fatores de motivação intrínseca, a qual se refere à execução de atividades no qual o prazer é inerente à mesma (Deci, 1975). O indivíduo intrinsecamente motivado busca, naturalmente, novidades e desafios, não sendo necessárias pressões externas ou prêmios pelo cumprimento da tarefa, uma vez que a participação nessa é a recompensa principal (Martinelli & Bartholomeu, 2007).

Ao mesmo tempo em que os atletas reconheceram suas limitações técnicas e táticas para a competição, evidenciadas pela insatisfação de seus níveis competitivos, eles apresentaram respostas indicando alto comprometimento e vontade de melhorar aspectos essenciais para o rendimento no esporte. Essa insatisfação pode estar relacionada à grande motivação para a competição, ou seja, os atletas por serem motivados para a competição exigem e cobram de si próprios a melhoria de aspectos de desempenho esportivo, o que pode resultar na maior satisfação dos jogadores. A maneira como o atleta percebe seu próprio desempenho afeta suas expectativas e reações emocionais, que, por sua vez, influenciam a futura motivação para o esporte (Weinberg e Gould, 2008).

No momento em que a coleta de dados foi realizada, a equipe havia obtido três vitórias nos três primeiros jogos da competição, inclusive derrotando o maior rival por 41 x 00 no jogo anterior à coleta. Isto é, os resultados positivos da equipe não influenciaram as respostas dos jogadores sobre seus próprios desempenhos. O dado sobre a insatisfação com seu desempenho somado ao reconhecimento sobre suas limitações técnicas sugere que os jogadores da equipe acreditavam que poderiam melhorar seu desempenho de competição conforme fossem desenvolvendo suas habilidades técnicas da modalidade, experiência e táticas de jogo.

Dentre os motivos identificados por Cruz (1996) para a prática esportiva, os resultados da pesquisa evidenciaram a importância de aspectos como a diversão, contatos sociais e competição, ou seja, fatores de motivação extrínseca, que é definida como a motivação para agir em resposta a algo externo à tarefa ou atividade (obtenção de recompensas materiais ou sociais, de reconhecimento, para demonstrar competências e habilidades) (Amabile, Hill, Hennessey & Tigh, 1994; Martinelli & Bartholomeu, 2007). No entanto, tais aspectos foram identificados como de menor importância se comparados aos fatores intrínsecos à prática dessa modalidade para esses jogadores.

O FA, apesar de seu crescimento acelerado nos últimos anos, não tem ainda um status social no Brasil, comparado com outras modalidades. Esse fato foi evidenciado pela baixa taxa de resposta de reconhecimento social como principal motivo para a prática do esporte. Assim, esse fator motivacional extrínseco, presente em outras modalidades como futebol e futsal (Hernandez, Voser & Lykawka, 2004) não foi significativo para os participantes do estudo.

As limitações do estudo referem-se à coleta com somente uma equipe de Futebol Americano do interior de São Paulo e a ausência de comparação com outros grupos. Entretanto, a pesquisa de caráter exploratório, apresenta dados que reforçam o fator intrínseco de motivação para uma modalidade que ainda não tem reconhecimento social e econômico no país e oferece informações para que gestores e comissões técnicas de equipes de futebol americano elaborem estratégias que atendam às necessidades e expectativas dos atletas visando o fortalecimento das equipes e consequente desenvolvimento da modalidade no Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Amabile, T.M.; Hill, K.G. Hennessey, B.A., & Tighe, E. M. (1994). The work preference inventory: assessing intrinsic and extrinsic motivational orientations. Journal of Personality and Social Psychology, 66(5), 950-967.
  2. Baade, R. A., & Matheson, V. A. (2000). An assessment of the economic impact of the American football championship, the Super Bowl, on host communities. Refletset Perspectives, 39, 35-46.
  3. Cruz, J. (1996). Motivação para competição e prática desportiva. In J. Cruz (Ed), Manual de Psicologia do Desporto (p.305-331). Braga
  4. Deci, E.L. (1975). Intrinsic motivation. New York. Plenum Press.
  5. Frontelmo, P. A. C. S. & Ribeiro, C. H.V. (2006). Futebol americano no Brasil: estratégias e limitações no país do futebol. Lecturas: Educación física y deportes, ISSN-e 1514-3465, Nº. 102
  6. Hernandez, J., Voser, R., & Lykawka, M. (2004). Motivação no esporte de elite: comparação de categorias do futsal e futebol http://www.efdeportes.com/efd77/motiv.htm, 10(77).
  7. Machado, A. M., Campbell, D., Barbosa, C. G., Bartholomeu, D., & Silveira, M. A. C. (2012). Motivação e Voleibol: Aspectos importantes no esporte juvenil. Coleção Pesquisa em Educação Física. 11(4).
  8. Martinelli, S. C., & Bartholomeu, D. (2007). Escala de Motivação Acadêmica: uma medida de motivação extrínseca e intrínseca. Avaliação Psicológica, 6(1), 21-31.
  9. Rodrigues, F. X. F., Costa, N. C. G., Pedroso, L. C., & Silva, J. A., (2014). Futebol americano no país do futebol: o caso do cuiabá arsenal. Barbarói, 41(2), 227-247.
  10. Weinberg, R. S., & Goud, D. (2008). Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed.