O FUTEBOL AMERICANO NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICO-SOCIOLÓGICA: O CASO DE MATO GROSSO

Neuza Cristina Gomes da Costa¹ Igor Alexandre Bueno² Francisco Xavier Freire Rodrigues³

¹ Universidade Federal de Mato Grosso, e-mail: [email protected], Cuiabá, Brasil.
² Universidade Federal de Mato Grosso, e-mail: [email protected] Cuiabá, Brasil.
³ Universidade Federal de Mato Grosso, e-mail: [email protected] Cuiabá, Brasil.

Resumo

O futebol americano é um esporte ainda pouco analisado no campo acadêmico. Em Mato- Grosso, sua história inicia há quase 14 anos, quando em 2002 houve a primeira “brincadeira” com a bola oval na capital Cuiabá. No início de 2016, havia no estado cinco equipes na modalidade masculina e duas na modalidade feminina, num momento de busca pela profissionalização. Conhecer acerca do seu desenvolvimento possibilita compreender um fenômeno contemporâneo, assim, este artigo buscou numa análise da história das equipes mato-grossense, elementos para uma análise sociológica que evidencia um processo de esportivização, onde o futebol americano parte de uma atividade lúdica para uma institucionalização esportiva, refletindo um cenário nacional de desenvolvimento da modalidade e estruturação de um campo.

Palavras-chaves: futebol americano; esportivização; Mato-Grosso.


The American Football a historical-sociological perspective: the case of Mato Grosso

Sumary

The American football is a sport still a little discussed in the academic field. In Mato-Grosso, its history started almost 14 years ago, when in 2002 we had the first “Play” with the oval ball at the Capital Cuiaba. At the beginning of 2016, there were 5 man’s teams and 2 woman’s teams over the state looking for professionalization. Knowing about its development enable you to understand a contemporary phenomenon, thereby, this article searched an analysis of the Mato-Grosso Teams history, elements for a sociological analysis which shows sportivization process, where the American football part of a playful activity for institutionalization sports, reflecting a national setting of the sport development and structuring a field.

Keywords: Football; sportivization; Mato-Grosso.


1. Introdução

De origem norte-americana, o futebol americano é um esporte que se desenvolveu a partir do outro mais antigo, o Rugby. Por meio do Rugby, esporte de origem inglesa, esta modalidade esportiva sofreu modificações e adaptações ao longo da sua história até o formato atual, mas mantendo a característica de ser um esporte de “conquista” de território, de contato físico e de caráter coletivo.

O futebol americano expandiu-se em nível mundial, principalmente, pela transmissão da National Football League (NFL), campeonato nacional americano que acontece no segundo semestre do ano e a midiatização em torno deste. Os jogos são transmitidos para entorno de 160 países com fãs espalhados por todos os continentes, Europa, Ásia e América do Sul. Essa expansão chegou de  forma ascendente no Brasil.

Atualmente, não há dados fixos referentes a quantidade de equipes de futebol americano existentes em nosso país. A Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA) realiza estatísticas na busca de dados, porém novos times são formados e buscam, em um primeiro momento, se consolidarem para depois firmarem o registro junto as federações nos respectivos estados. No entanto, julga-se que existam mais de cem equipes no país, dentre masculinas e femininas.

Segundo matérias jornalísticas realizadas no Brasil, o Futebol Americano tem apresentado grande sucesso. Um estudo realizado pela Ibope Repucom aponta que houve o crescimento do número de fãs de 13% em uma comparação de janeiro de 2016 em relação a setembro de 2015; investigado os internautas brasileiros, 21% se declararam fãs de futebol americano, o que representa 14,3 milhões de pessoas 4. Em outra matéria, um pouco mais antiga, publicada em 28 de janeiro de 2015, mas relevante, questiona-se a popularidade do futebol americano e seu crescimento. Segundo a reportagem, o Brasil contava com duas ligas de futebol americano, o Campeonato Brasileiro organizado pela federação nacional e o torneio Touchdown que era montado independentemente (hoje essas duas ligas apresentam-se unidas), evidenciando o crescimento da prática do esporte no país; além deste ser um fator para a ascensão do esporte, a adesão da televisão por assinatura colaborou com o acesso das pessoas ao campeonato da NFL; além da facilidade da busca de informações na internet colaborando com o entendimento e conhecimento do jogo e o sucesso nas redes sociais com a divulgação de campeonatos e equipes. Destaca-se também a entrada de um brasileiro, Cairo Santos em 2014, na NFL 5.

4 – Disponível em http://www.iboperepucom.com/br/releases/ibope-repucom-mais-de-14-milhoes-de-internautas-brasileiros-sao-fas-de-futebol-americano. Acesso em abr. 2016.
5 – Disponível em http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/noticia/2015/01/zh-explica-por-quea-popularidade-do-futebol-americano-cresceu-nos-ultimos-anos-4689415.html. Acesso em: 30 jan. 2015.

Muitas informações são acessadas sobre o futebol americano na internet, porém, a maioria de cunho jornalístico. Verifica-se poucos trabalhos/registros acadêmicos sobre o futebol americano, pouco ainda se sabe sobre seu desenvolvimento em nosso país, então uma história ainda está sendo traçada. São inúmeros questionamentos acerca desta prática, com poucas respostas.

Com fins de colaborar com o debate acerca do desta modalidade esportiva ainda nova no campo da sociologia do esporte, propomos um panorama do futebol americano no estado de Mato Grosso através da história de cada equipe e da Federação Mato-Grossense de Futebol Americano (FMTFA), tambem apresentaremos uma caracterização do cenário nacional que colabora na compreensão deste fenômeno mais local. Pretendese analisar elementos da esportivização que contribui para a consolidação do futebol americano como modalidade esportiva. Para isso, considera-se esportivização o processo de transformação de jogos, brincadeiras e outras atividades físicas e corporais em esportes e sua incorporação pela industrial cultural do entretenimento. O esporte se caracteriza como a institucionalização pela transformação de certas práticas corporais.

Segundo Elias (1992), compreender o esporte possibilita conhecer a sociedade que vivemos. Assim, conhecer acerca do futebol americano, um esporte de origem estrangeira, que vem conquistando a agenda de lazer dos mato-grossenses, especialmente, dos cuiabanos é importante para compreender um fenômeno social da nossa sociedade contemporânea.

2. Metodologia

Para o alcance dos objetivos foi realizada uma pesquisa qualitativa, exploratória, utilizando o caso do Mato Grosso como análise. O estudo de caso, conforme Gil (2008) é uma modalidade de pesquisa muito específica, pois consiste no estudo profundo e exaustivo de um único objeto ou de poucos objetos (um caso particular). Depende fortemente do contexto do estudo, e seus resultados não podem ser generalizados.

Mato Grosso, teve sua primeira equipe de futebol americano na capital Cuiabá. O Cuiabá Arsenal foi fundado em 2006 e jogou pela primeira vez equipado em 2010, estreando a Liga Nacional organizado pela extinta Associação Brasileira de Futebol Americano (AFAB) e consagrando-se campeão. Após quase dez anos de sua fundação, tem-se uma expansão do esporte no estado que contava no início de 2016 com cinco equipes masculinas, sendo o Cuiabá Arsenal, o Sinop Coyotes, o Sorriso Hornet´s, o Tangará Taurus e o Rondonópolis Hawks. Cada equipe representando a cidade de origem através do primeiro nome. Quanto às equipes femininas, havia a equipe Cuiabá Angels, fundada em 2007, extinta no início do ano de 2015 onde algumas atletas foram absorvidas pela equipe do Cuiabá Arsenal, que iniciou a modalidade feminina. Na cidade de Sinop e Sorriso, localizadas no norte do estado, iniciou também em 2015 o futebol americano com mulheres, consolidado em Sinop, com a equipe Sinop Coyotes.

Os resultados apresentados neste estudo são de fontes primárias pertencentes ao banco de dados da pesquisa financiada pela FAPEMAT (Fundação de Apoio à pesquisa de Mato Grosso) “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso”. As informações foram obtidas a partir de entrevistas com os fundadores e presidentes das equipes mato-grossenses no segundo semestre de 2015 e no primeiro de 2016. Também foi realizada análise documental das Atas de fundação e estatutos que presidentes algumas equipes disponibilizaram aos pesquisadores. Destaca-se que algumas informações e análises foram acrescentadas pela primeira autora a partir de sua vivência como jogadora e presidente da equipe feminina extinta, Cuiabá Angels por quase oito anos.

3. Um pouco sobre o Futebol Americano

O futebol americano, conforme Duarte (2004), tornou-se popular nos Estados Unidos (EUA) através do futebol universitário, que teve na rivalidade entre as universidades a mola propulsora para a consolidação. Por volta dos anos de 1867, foi realizada a primeira série de três jogos de futebol americano entre as equipes das Universidades de Harvard e de Yale.

Conforme demonstra Herget (2013), o futebol americano sofreu inúmeras alterações em relação ao rugby. Esse fato provocou polêmicas pelos danos causados do contato físico aos seus jogadores, desde complicações até mortes. Foi proibido, discutido, modificado e aprimorado com os equipamentos de proteção e as regras que iam sendo criadas a fim de torná-lo mais seguro e viável. A revolução enquanto esporte ocorreu nos anos de 1910 e 1912 e desde então vem mantendo o formato, com algumas mudanças nas regras.

Com as adaptações necessárias, o futebol americano tornou-se esporte marcador da identidade norte-americana. Sobre o significado de esporte, considera-se a ideia elaborada por Norbert Elias (1992) sendo aquele caracterizado pela competição, força física, cumprimento de regras, adoção de certo comportamento com fins da busca pela excitação. O esporte seria a utilização do tempo do lazer em confrontos não violentos de habilidades corporais.

O processo de passagem de uma prática corporal para um esporte é um processo entendido por Elias (1992) como esportivização. Segundo o autor, o avanço da civilização, caracterizado pelas mudanças nos modelos sociais de conduta e sensibilidade, possibilitou a transformação de passatempos em esporte.

O esporte como excitação foi possível visto ao processo civilizatório que com o advento da civilização e da sociedade moderna, o autocontrole e a inibição de paixões e controle de pulsões foram cada vez mais impostas, modificando a constituição psicológica dos indivíduos. Conforme Elias (1993, p.270), “nenhuma sociedade pode sobreviver sem canalizar as pulsões e emoções do indivíduo, sem um controle muito específico de seu comportamento”. Assim, o esporte é uma forma de controle e modelação do comportamento das pessoas na sociedade, especialmente, no controle da violência.

Partilhando desta ideia, Eric Dunning afirma que o esporte moderno, oriundo do processo civilizatório, tem a função de produzir excitação controlada e prazerosa, construída socialmente, além de criar oportunidades de sociabilidade (GASTALDO, 2008).

Assim ocorreu com o futebol americano. O seu formato atual, como dito, sofreu inúmeras transformações ao longo do tempo. Atualmente o futebol americano tem como forma oficial de jogo um time com três equipes, sendo uma equipe de ataque (ofensivo- time que possui a posse de bola); uma de defesa (defensivo); e os times especiais que só entram em campo em situações de chute (kick offs, Field goals e punts). A partida possui quatro quartos de 15 minutos cada. O time que recebe a bola do chute inicial (kick off) no primeiro quarto terá que começar o terceiro chutando. A equipe de ataque tem 40 segundos para começar uma jogada, desde o rudle (roda para escolha da estratégia da jogada) até a saída da bola com o snap e quatro chances para o alcance de dez jardas. A marcação do Touch Down (seis pontos) é feita quando o jogador entra com a bola na Endzone, zona final do campo. Para cada Touch Down o ataque tem direito a um chute de conversão de um ponto e caso em uma quarta descida, o ataque esteja próximo da endzone adversária, pode tentar também o field goal, chute que vale três pontos. Os jogadores devem estar equipados com protetores de joelhos, capacetes, protetor bucal, protetores de ombros (shoulder pads), protetores de quadril, cóccix e protetores de coxas.

No Brasil

A história do futebol americano no Brasil é protagonizada por brasileiros, mas com participação de americanos que contribuíram com a explicação do jogo, com o entendimento de regras e com a capacitação nos treinos das equipes. Estes brasileiros foram protagonistas na busca da excitação no tempo livre do lazer e com a visão da transformação de um passatempo para um esporte.

Pons (2013) em sua pesquisa etnográfica sobre práticas de consumo envolvendo o futebol americano, realizou um levantamento histórico e afirma que Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo foram os estados percussores do futebol americano no país. O autor cita três fatores para o desenvolvimento do mesmo: a transmissão televisiva do esporte, o interesse pessoal e o cenário regional. O interesse pessoal refere ao interesse de pessoas com o gosto pelo futebol americano que se motivaram e se engajaram na estruturação de equipes em suas cidades e seus estados. O cenário regional refere a iniciativas de pessoas em diversas regiões sem influência de umas às outras.

Dando maior ênfase sobre a transmissão televisa do futebol americano, Pons (2013) descreve que a TV Tupi em 1968 recebeu da rede televisão norte-americana CBS videotapes de jogos da NFL. Para realização dos comentários da partida, explicação das regras e do funcionamento do jogo, contrataram um norte-americano que trabalhava no Brasil.

Foi apenas nesse ano que os jogos foram transmitidos na TV Tupi. Em 1980 alguns jogos passaram na TV Bandeirantes. A TV Manchete transmitiu o Super Bowl de 1988 e 1991. Esta foi a primeira forma de entrada do futebol americano no país. Com o início da TV por assinatura 6 nos anos de 1990, o canal de esporte da ESPN transmitiu os jogos ao vivo e contava com o comentarista André José Adler, que foi uma figura importante para o desenvolvimento do esporte no país.

6 – Televisão por assinatura é um acesso pago mediante a assinatura de um pacote de canais. OS canais de televisão gratuitos são chamados de televisão aberta.

Atualmente, com o maior acesso da televisão por assinatura, os jogos são transmitidos em tempo real, além de poder ser visto por computador ou telefone com acesso da internet. Soares (2014) complementa que com o advento da televisão por assinatura, ou TV a cabo, juntamente com algumas transmissões na TV aberta, o esporte ganhou popularidade entre os brasileiros.

Visto ao aumento do número de equipes e a necessidade de organização nacional, em 2000 foi fundada a Associação de Futebol Americano do Brasil (AFAB), entidade máxima do esporte no país e responsável pelo desenvolvimento e regulamentação do mesmo. A associação foi reconhecida pelo Ministério do Esporte, Federação Internacional de Futebol Americano (IFAF), e Federação Pan-americana de Futebol Americano (PAFAF). Visto o crescimento do futebol americano no Brasil, a AFAB em 2012 tornou-se Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), que rege atualmente o campeonato brasileiro de futebol americano masculino em duas divisões e os circuitos brasileiros de Flag, masculino e feminino.

A fim de uma compreensão geral, destacamos alguns marcos na história do futebol americano no Brasil:

– O primeiro campeonato de futebol americano em 2000, realizado no Rio de Janeiro na areia das praias cariocas, o Carioca Bowl.
– O primeiro campeonato de grama no Brasil realizado em 2006 na região sul do país pela Liga Catarinense;
– Em 2006 a oficialização do Cuiabá Arsenal em Mato Grosso;
– Em 2007 o primeiro amistoso da Seleção Brasileira de Futebol Americano em 2007 contra a Seleção do Uruguai em Montevidéu
– O primeiro campeonato brasileiro organizado pela AFAB em 2010, denominado de Liga Nacional, com duração de três anos;
– Em 2013, visto ao aumento do número de equipes no Brasil, a CBFA ampliou o número de vagas do campeonato brasileiro alterando o formato para o acontecimento do grande Campeonato Brasileiro de Futebol Americano com 33 equipes;
– Em 2014 alteração no formato do campeonato do ano anterior, onde julgou-se necessário um novo modelo, sendo assim, a divisão do campeonato em duas categorias: a Superliga Nacional de Futebol Americano, como a primeira divisão do campeonato brasileiro de futebol e a Liga de Futebol Americano, com presença de equipes ainda em ascensão no cenário nacional. As equipes da Superliga foram separadas pelo critério da região em duas Conferências: Superliga Nordeste e da Superliga Centro-Sul, e a Liga com a separação das equipes em três Conferências, Sul, Sudeste e Centro-Oeste;
– Em 2015, a participação do Brasil da sua primeira copa do mundo de futebol americano após concorrer com o Panamá pela vaga.

Com todo esse processo, o futebol americano começou a tomar forma e se firmar no cenário esportivo nacional. Há hoje algumas equipes que crescem e outras começam a surgir por todo o território nacional. Nossa hipótese é de que se trata de um fruto da espetacularização esportiva.

A união da mídia com o esporte, principalmente as redes sociais, proporcionou a difusão social, possibilitou a inserção do futebol americano na vida cotidiana das pessoas através da ampla cobertura e presença do esporte, como também o aumento de eventos esportivos a fim de garantir e ampliar maior visibilidade. A busca por se fazer presente e se manter no cenário esportivo fez com que o futebol americano iniciasse o processo de mercantilização, que, consequentemente, direcionou para o desenvolvimento de estratégias de espetacularização do esporte. Assim, para poder dar visibilidade e vender um produto esportivo o melhor caminho é expô-lo de forma espetacular. Sendo assim, a espetacularização e a mercantilização esportiva do futebol americano são elementos que trabalham/atuam em conjunção com o fim de popularizar o produto esportivo futebol americano. Para ampliar a presença do esporte e aumentar os lucros ligados com a mercantilização a maneira mais eficaz é espetacularizar os eventos e partidas com o objetivo de fazer o esporte mais conhecido para um potencial público consumidor ampliado e massificado. Como efeito tem-se maior número de pessoas desejosas por consumir o futebol americano (MARCHI JR, 2001).

A ideia do termo popularização empregado aqui tem o sentido compreendido como uma derivação de popular que também pode significar público, notório, conhecido. Ao se consultar o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, popularização é uma derivação do termo popularizar, que significa tornar-se conhecido ou estimado por muitas pessoas; divulgado; ganhar aceitação do povo. Sendo assim, pode-se, também, considerar popularização como tudo o que é ou foi comum, presente no cotidiano de alguém ou de várias pessoas. Esse é o principal objetivo da espetacularização esportiva. Almeja-se tornar conhecido o produto futebol americano e o que se massifica são os conceitos e termos da prática e, principalmente a disposição para o consumo, não necessariamente a prática competitiva em si.

Vale ressaltar que há a diferença entre o processo de espetacularização do esporte contemporâneo ligado ao aumento de rentabilidade financeira, principalmente, e a busca de profissionalização total em instancias distintas pormeio de intervenções objetivadas que diferem do processo de popularização da prática. Dessa forma, dever ser entendido que o processo de espetacularização (MARCHI JR, 2001).

Em consequência da espetacularização, várias equipes surgiram e surgem por todo o território brasileiro como também foram fundadas diversas entidades que objetivavam a formação de um corpo mais consolidado de atletas para a realização de campeonatos regionais e estaduais de futebol americano. Em consequência dessa dinâmica, esta modalidade esportiva é forçada, em certa medida, a adotar um perfil mais profissional, o que leva à esportivização do futebol americano com a pretensão da profissionalização deste esporte no Brasil. Nesse sentido, o futebol americano primeiramente se mercantiliza e se espetaculariza para obter visibilidade e em seguida necessita passar por um processo de esportivização para se consolidar com modalidade importante dentro do cenário esportivo brasileiro e por consequência dessa cadeia de processos a o início da popularização e massificação dos conceitos e termos referentes ao esporte.

De acordo com Pires (2000), acredita-se que a popularização do futebol americano está ligada com a universalização cultural do consumo, vinculada com a espetacularização esportiva, graças a artefatos da mídia, em especial, as redes sociais. Assim, a popularização do futebol americano é inerente à “cultura massificada” destinada ao consumo vinculada com mercadorização do esporte pelo viés da espetacularização.

Conforme Eric Dunning, a pretensão da profissionalização está atrelada a sociedade capitalista, que rege valores orientados pelo dinheiro, onde vencer é mais importante que competir. “O esporte foi tão bem-sucedido em atrair pessoas na condição de jogadores, torcedores, árbitros e administradores, que valores profissionais e financeiros vieram a tomar crescentemente a cena, marginalizando e em alguns casos eliminando os valores associados com o fair play 7” (GASTALDO, 2008, p. 228).

7 – Fair play, segundo Bourdieu (1983, p.5) “é a maneira de jogar o jogo dos que não se deixam levar pelo jogo a ponto de esquecer que é um jogo, dos que sabem manter a “distância em relação ao papel”, como diz Goffman, implícita em todos os papéis prometidos aos futuros dirigentes”.

Neste sentido, Laguillaumie (1978, p. 32) em uma análise anterior, mas atual, garante que:

esporte se inscreve no marco das relações de produção que determinam fundamentalmente sua estrutura interna e natureza profunda. Atualmente, o esporte está determinado pela sociedade capitalista, pelas relações de classe. O esporte, como todo fato social, tem, portanto, uma natureza classista.

Laguillaumie (1978) compreende o esporte como um reflexo das categorias do sistema capitalista industrial, tais como competição, rendimento, disciplinamento, record, etc. O autor procura identificar a dinâmica interna a partir da abordagem comparativa com este modo de produção.

É importante destacar que o esporte moderno foi apropriado pela indústria cultural do entretenimento, tornando-se não apenas um “produto” do capitalismo moderno, mas sobretudo, uma “mercadoria” com um tratamento espetacularizado. Mercadoria que proporciona e tem como sentido gerar o esporte como um produto a ser vendido para um potencial comprador. O sentido da espetacularização é direcionado ao crescimento de espectadores e consumidores em um mercado de bens, serviços e entretenimento que é distinto do entendimento de popularização ligado e direcionada para a massificação da prática (MARCHI JR, 2001).

Sendo assim, no momento que o futebol americano passar a receber um tratamento mais mercantilizado com o perfil de produto, consequentemente espetacularizado, aos poucos incorpora as estruturas necessárias para direcionar o produto esportivo para a massificação, primeiro do produto e segundo dos agentes relacionados com a prática e finalmente para os potenciais consumidores. Portanto, hoje presenciamos um crescimento de equipes, mas ainda não é o momento de afirmar que o futebol americano é um esporte popular no sentido de sua prática competitiva. O futebol americano se encontra em uma fase intermediaria, ainda busca aliados e recruta novos agentes para compor o campo esportiva que ainda se estrutura.

4. O futebol americano em Mato Grosso

Mato Grosso ocupa um lugar de destaque no cenário nacional do futebol americano. O Cuiabá Arsenal é conhecido nacionalmente, ainda mais após o jogo da final da conferência Centro-sul da Superliga Nacional de 2015 na Arena Pantanal, batendo o recorde de público em uma partida de futebol americano no país (mais de 15 mil pessoas conforme informação divulgada pela equipe). Entre outros destaques, a equipe conquistou em 2010 e 2012 o título de campeão brasileiro, exportou atletas para os Estados Unidos e cedeu jogadores para compor a seleção brasileira de futebol americano que disputou o campeonato mundial em 2015, no qual o Brasil participou pela primeira vez. Dos quatro jogadores cedidos, um foi escalado na composição da seleção do mundial e o mesmo recebeu o título de melhor atleta do estado ainda em 2015.

Para entendermos esse cenário, é importante conhecer a trajetória de cada equipe formada no estado, a fim de constituirmos uma história do futebol americano em Mato Grosso em uma perspectiva sociológica. Para isto, apresentamos um breve histórico das equipes mato-grossenses. Esta apresentação está organizada por ordem cronológica a partir da data de fundação das mesmas: Cuiabá Arsenal, Sinop Coyotes, Tangará Taurus, Rondonópolis Hawks, Sorriso Hornet´s. Também está exposto sobre a Federação Mato-grossense de Futebol Americano (FMTFA) criada em 2013 para fomentar o futebol americano no estado, mas que até a abril de 2016 ainda não havia sido oficializada.

Interessante anunciar alguns pontos que se conformam com o surgimento das primeiras equipes nacionais citadas por Pons (2013) na discussão anterior. Veremos a importância da transmissão televisiva dos jogos de futebol americano na concepção da prática, pois foi uma das formas de conhecimento do esporte por um dos fundadores das equipes, mas pode-se afirmar que o interesse pessoal é um fator que mais se destaca em Mato Grosso no desenvolvimento do futebol americano.

Os fundadores das equipes destacam-se pela perseverança e motivação na criação de um time de futebol americano, dentre eles, o Orlando Ferreira Júnior, fundador do Cuiabá Arsenal, que pelo depoimento dos demais, foi fundamental para a difusão do esporte no estado. A fundação do Sinop Coyotes, Tangará Taurus e Rondonópolis Hawks deu-se pelo contato com este ator e partir deste contato é como se uma rede começasse a se formar, pois o surgimento do Sorriso Hornet´s deu-se pelo contato do fundador com a equipe do Sinop Coyotes. Ressalta-se também a importância das redes sociais como meio de contato, atração e difusão do gosto pela prática e pelo consumo deste esporte.

Cuiabá Arsenal

Em 2002, um grupo de amigos, liderados por Orlando Ferreira Junior, reuniu-se para a prática do futebol americano aos fins de semana. Este ator, possuía 30 anos quando iniciou a prática desse esporte. Formado em ciência da computação e com pós-graduação em gestão empresarial, sempre atuou como gerente ou diretor em empresa de educação superior, o que colaborou para formação do seu capital social e facilitação de contatos com outras empresas na busca de apoio para a equipe que se formaria.

primeiro contato de Orlando Junior com o futebol americano foi pela televisão, na transmissão de jogos pela Band Sports (canal de televisão fechada), mas sem despertar seu interesse. Foi ao planejar uma viagem aos Estados Unidos da América (EUA) no ano de 2002 que seu interesse pelo futebol americano iniciou. Ao descobrir que este esporte era uma preferência dos americanos, passou a estuda-lo e fez questão de assistir uma partida ao vivo. Orlando considera a pesquisa realizada e a participação no jogo como seu primeiro contato com o futebol americano, pois quando assistiu pela televisão, foi um acaso numa troca de canal, “não ficou nada gravado”. Ao retornar ao Brasil, trouxe uma bola, a primeira do treino do que seria o Cuiabá Arsenal. Orlando conta que “precisava jogar esse esporte” e mesmo se considerando “velho” para começar um novo esporte, isso não o impediu.

Mais ao final de 2002, diante uma viagem à cidade do Rio de Janeiro, Orlando fez uma parada na capital de São Paulo e praticou o futebol americano com um pessoal que treinava, o que lhe motivou ainda mais. No seu retorno a Cuiabá, estava ainda mais decidido a praticar o esporte e convidou outros conhecidos via e-mail. Por três anos, o grupo sofreu alterações, havendo rodízio de integrantes. Ao final de 2005 um grupo se consolidou e Orlando percebeu a necessidade de avançar.

Em 2005, Orlando começa a pensar em jogos amistosos contra outras equipes nacionais e participação em competições, também nacionais. Foi diante do primeiro jogo, o amistoso contra o Tubarões do Cerrado, time de Brasília, que se deu a escolha do nome da equipe. Segundo Orlando 8:

Começamos a montar discussões no Orkut (rede social da internet) e acabou saindo o nome de Arsenal por conta do Arsenal de guerra do prédio onde hoje fica o Sesc Arsenal. O nome também serviu para remeter a cidade de Cuiabá. Em dois meses a gente colocou o time de pé, fazer uniforme, organizar a partida, preparar arbitragem, divulgação e tudo mais. Esse foi o nascimento da equipe, o nascimento foi 16 de julho de 2006, quase 10 anos de existência.

8 – FEREIRA JUNIOR, Orlando. Orlando Ferreira Junior: Depoimento [ago. 2015]. Entrevistador: Igor Alexandre Silva Bueno. Cuiabá, 2015.1 arquivo .mp3 (60:03 min.). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso” e para dissertação de mestrado.

Em 2006, o Arsenal realiza jogos contra equipes nacionais e inicia a preocupação com treinos e condicionamento físico dos atletas, visando as competições que se ampliam no país, mas na modalidade Bowl, ou seja, torneios regionais compilados geralmente em um final de semana precedido de feriado.

A partir de 2009, o Arsenal adquire equipamentos de proteção e registra a equipe em cartório como Associação Atlética Cuiabá Arsenal. Neste mesmo ano, contrata jogadores americanos para participação em campeonatos nacionais, sistematiza os treinos e passa a exigir disciplina dos atletas.

Os equipamentos de proteção foram comprados por Orlando que passou a realizar viagens mensais para os Estados Unidos, trazendo-os na bagagem até um número razoável para equipar todo o time de ataque e defesa. Posteriormente, os equipamentos foram importados pela CBFA, sem custo dos impostos. Foram comprados com dinheiro do Orlando somado com alguma arrecadação da equipe. A contratação de jogadores americanos deu-se também pelo empenho de Orlando, que forneceu casa para hospedagem, alimentação e um carro para locomoção. Com avanço da equipe e início do patrocínio do banco Sicredi em 2014, bem como de outros apoios financeiros, além da arrecadação por mensalidade dos atletas, salários significativos passaram a serem pagos a alguns jogadores contratados, bem como membros comissão técnica.

Considera-se o ano de 2009 e as mudanças que ocorreram na equipe neste momento como o início da profissionalização. Orlando juntamente com outros à frente da Associação, perceberam que com a “cultura dos amigos” a equipe não se profissionalizaria. Identificaram a necessidade de uma mudança na organização cultural da equipe, de um grupo de amigos que jogavam por diversão, para um grupo de atletas que competem pela vitória, desenvolvendo o significado da competição e a busca por melhores performances. Mesmo que esta mudança foi pensada em 2009, havia dificuldade na implantação, pois o try out 9 ainda oferecia poucos novos atletas e a cobrança ao cumprimento de regras e disciplina ocasionava conflitos de interesse, levando a saída de atletas antigos.

9Try out é um modelo de seleção de atletas, possibilitado através de inscrição de interessados e submissão destes a testes físicos e técnicos do futebol americano.

Sobre essa “cultura de amigos”, Orlando 10 comentou:

[…] ai gente percebe que com essa cultura não ia nos levar a diante, que a gente precisava mudar junto com o planejamento de comunicação, a gente viu que precisava mudar dentro do time, a gente precisava mudar de patamar. Foi um momento muito doloroso para a equipe, porque quando a gente rompeu com essa cultura que o time era para os amigos, era só para diversão agora a gente tem que ter um time competitivo para torcida.

10 – FEREIRA JUNIOR, Orlando. Orlando Ferreira Junior: Depoimento [ago. 2015]. Entrevistador: Igor Alexandre Silva Bueno. Cuiabá, 2015. 1 arquivo .mp3 (60:03 min.). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso” e para dissertação de mestrado.

Este momento da história do Arsenal é interessante, pois demonstra o que Laguillaumie (1978) e Dunning (2008) comentam sobre os valores que envolvem o esporte na sociedade capitalista. Os valores esportivos, segundo Dunning. passam a ser substituídos pelos valores capitalistas (GASTALDO, 2008). Os envolvidos começam a se interessar mais pela vitória da equipe do que outros fins como a integração social, a doação de sentidos e emoções.

Destaca-se um trecho na declaração do Orlando onde afirma que o processo foi “doloroso”, como relevante por demonstrar um caráter cultural mais amplo, de suposta rupturas com os valores românticos do amadorismo esportivo. Os encontros que tinham o pretexto de ser uma atividade de lazer, descontração, de sociabilidade e certo tipo de excitação passam a ter outro sentido, de obrigatoriedade, comprometimento, disciplina, de eleição dos interesses coletivos em prol dos individuais. Mudanças que ocasionaram sofrimento e “dor” aos praticantes e gestores, visto a obrigação em aceitar uma certa racionalização e objetividade, que nós, brasileiros, como colocou Sergio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil” (1997) temos dificuldade em aceitar pela nossa característica cultural da pessoalidade e do “jeitinho”, resultados do personalismo e da “cordialidade”. Entretanto, mesmo com essa mudança de perspectiva da equipe, os motivos da sociabilidade e excitação ainda eram ensejos da prática do esporte, agora aliados a possibilidade de status, de algum ganho financeiro ou social, valores atrelados a sociedade capitalista.

Além da mudança da “cultura dos amigos”, a percepção da necessidade de um planejamento para comunicação pela gestão da época fica evidente nas falas do Orlando. Foi neste momento que houve a criação de uma diretoria de marketing para divulgação dos eventos que o Arsenal participava, a fim de tornar a equipe conhecida e facilitar a busca por patrocínios, elementos do processo de esportivização.

A ideia da profissionalização tornou-se mais forte após a conquista do título de campeão brasileiro em 2010. A mudança que Orlando comenta, amplia-se nesse momento. Além da mudança de cultura organizacional, modificaram-se as formas de treinamento dos atletas, do planejamento e formas de gerir a associação. Destaca-se que não havia patrocínio ou outro tipo de apoio financeiro para a equipe, o custeio dos jogos era pago por Orlando e os pequenos apoios que conseguia e, pelos próprios atletas.

Pelos relatos de Orlando, o Cuiabá Arsenal a partir da vitória do primeiro campeonato brasileiro de futebol americano deixa de ser uma equipe amadora e passa a se fundamentar nos princípios da profissionalização.

Esta mudança evidencia o processo de esportivização, quando a prática do jogo deixa de ser por brincadeira e diversão para tornar-se um esporte, caracterizado pela competição, cumprimento de regras, adoção pelos atletas e dirigentes de certos comportamentos. O tempo livre daqueles praticantes, ocupados pela prática de lazer do jogo do futebol americano, passa a ser utilizado agora para treinos sistemáticos, para a prática esportiva do futebol americano, tendo como guia os valores do profissionalismo, voltados para a competição e vitória, a busca de apoio financeiro e valorização social.

No ano de 2011, a equipe buscou novamente o título de campeão brasileiro a partir de esforços da gestão com apoio financeiro e dos atletas em campo. Porém, mesmo com os investimentos e aprimoramento nos treinos, o Arsenal é eliminado nas semifinais e não disputa o título do campeonato. Devido a este resultado, o planejamento de 2012 foi de intensificação e sistematização maior dos treinos para o campeonato seguinte e uma grande novidade foi a comissão técnica composta por três americanos.

Com ingresso cada vez maior nos try out, os atletas da equipe tiveram que demonstrar maiores desempenhos para serem escalados, o que serviu de motivação para alguns, mas também de desmotivação para outros, culminando em saídas. Mesmo não sendo uma prática remunerada, é exigido aos atletas comprometimento e disciplina. A recompensa, mesmo que não financeira, é traduzida em reconhecimento local e nacional, além da possibilidade de jogar no exterior como aconteceu com três atletas após a primeira rodada da Liga nacional de 2012. Temos aqui a idéia de aquisição e valorização do capital simbólico como elemento do esporte em processo de industrialização.

Dos torneios e campeonatos que a equipe já participou, segundo Orlando, obteve o título de campeão no Pantanal Bowl I em 2007, Torneio Capital II em 2008 e Sorocaba Bowl, também em 2008. Conquista o Pantanal Bowl II em 2009 e o título de campeão brasileiro em 2010 e 2012 (Brasil Bowl). Também foi campeão do primeiro torneio estadual, o Pantanal Bowl MT, em maio de 2014 e do campeonato estadual em 2015.

Nesta trajetória, teve jogadores convocados para participar da seleção brasileira desde o primeiro jogo contra a seleção do Uruguai em 2008. Já exportou cinco jogadores para universidades americanas e desde 2009 sempre possuiu no elenco americanos como treinadores e jogadores.

Essas ações são indícios do reconhecimento tanto interno (local) quanto externo que se fazem necessários para estruturação do campo esportivo. Segundo Pierre Bourdieu (2004), para que o campo se mantenha se faz necessário do desenvolvimento de ações que visem o reconhecimento para estruturar e fortificar as relações de reconhecimento do Cuiabá Arsenal como agente de especial magnitude.

Sinop Coyotes

A equipe do norte de Mato Grosso, Sinop Coyotes, foi criada por Fábio Miguel que teve contato com o futebol americano através de jogadores do Cuiabá Arsenal que estavam em um semáforo da capital fazendo pedágio de arrecadação de dinheiro para uma viagem. Fábio teve interesse em conhecer melhor o esporte e praticá-lo: “alguns jogadores estavam fazendo blitz no semáforo do três américas, logo me interessei e compareci no próximo treino, foi paixão à primeira vista”.

A prática do futebol americano começou em 2007, durante pouco tempo, pois 2008, Fábio muda-se para a cidade de Sinop e motivado pela paixão que a prática do futebol americano lhe despertou, decidiu montar uma equipe naquela cidade.

A partir da decisão da criação de uma equipe na cidade de Sinop, Fábio visitou academias de musculação, treinos de handebol e basquete e convidou os praticantes a treinarem futebol americano. Fábio 11 descreve que houve muito receio da prática pelos convidados:

Alguns tiveram receio por se tratar de um esporte de muito contato físico, ainda mais porque não tínhamos os equipamentos de proteção, a rejeição no início foi grande, mas alguns abraçaram a ideia junto comigo.

11 – MIGUEL, Fábio H. Fábio Miguel. Depoimento [nov. 2015]. Entrevistadora: Neuza Cristina Gomes da Costa. Cuiabá, 2015. (Entrevista digital). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso”.

A paixão citada por Fábio reflete o que Elias (1992) descreve acerca do esporte como proporcionador do prazer, da excitação. A procura por essas emoções dá-se cada vez mais em nossa sociedade e se relaciona com a busca por satisfação de outras necessidades, como a fome, a sede e o sexo. No entanto, esta trata-se de um fenômeno mais complexo, um fenômeno muito menos puramente biológico, de traço sociológico e ainda contestado por muitos pesquisadores, especialmente, pela contradição que o lazer se coloca com o trabalho, uma outra discussão.

Essa paixão pelo futebol americano foi citada também pelo presidente da equipe, Ricardo Bonadimann 12: “eu fiz o primeiro treino e aí sim eu fui buscar informação sobre o esporte, quanto mais eu conhecia, eu me apaixonava”.

12 – BONADIMANN, R. Ricardo Bonadimann: Depoimento [ago. 2015]. Entrevistador: Joycy Ambrósio da Silva. Cuiabá, 2015. 1 arquivo.mp3 (9:03 min.). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso”

Fábio, apoiado por outros praticantes, como o Ricardo, motivou os jogadores na fundação do esporte em Sinop que iniciou seus primeiros treinos em novembro de 2008. No início, segundo Ricardo, começou com uma distração e depois ganhou um formato mais profissional e esportivo.

Começou como um hobby, brincadeira de final de semana que acabou se tornando um time mesmo. Os colegas se interessaram e convidaram outros colegas e parentes: foi indo! E a gente foi criando essa ideia, foi tomando força de a gente ter um time competitivo e em menos de um ano nós tínhamos um time já equipado, aqui no norte de mato grosso, uma coisa que era surreal naquele tempo.

A equipe foi registrada em cartório após cinco anos do início da prática, em 2013, como Clube Sinop Coyotes Futebol Americano. A “brincadeira de final de semana” que passa ser “time competitivo” é um fato que repete a história do Cuiabá Arsenal e também marca o processo de esportivização refletindo os valores da profissionalização.

O Sinop Coyotes integrou um campeonato nacional em 2012, mas não teve resultados positivos. Em 2014, a CBFA criou duas ligas nacionais, a Superliga para times mais antigos e consolidados e a Liga Nacional para os times em ascensão. A equipe do norte do estado se enquadrou nessa última categoria. Ao final de 2015 contava com cerca de 50 atletas, uma equipe sub-15 com cerca de 25 rapazes e um time feminino em formação com aproximadamente 30 meninas.

Tangará Taurus

Tangará Taurus também foi fundado por um ex-jogador do Cuiabá Arsenal, Luan Romanti Ezer 13, que na época da fundação tinha 21 anos. Luan morava em Cuiabá e mudou-se para a cidade de Tangará da Serra em meados de 2009. O mesmo não “queria parar o que começou” e convidou alguns amigos para jogar futebol americano aos finais de semana. Por dois meses amadureceu a ideia de uma equipe tangaraense e pensou no nome “Taurus”, que posteriormente foi aprovada pelos outros membros fundadores. A representação do nome, “Touro” em português, perpassa pela força física, agressividade e instinto de proteção. Animal comum na região e que poderia representar a cidade.

13 – EZER, Luan Romanti. Luan Romanti Ezer. Depoimento [set. 2015]. Entrevistadora: Neuza Cristina Gomes da Costa. Cuiabá, 2015. (Entrevista digital). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso”.

O treino de fundação da equipe data de 06 de fevereiro de 2010. Esse primeiro treinamento contou com 15 rapazes, alguns convidados por Luan e outros conhecidos de seus convidados. No mês seguinte ao primeiro treino, em 27 de março de 2010, 32 membros se reuniram na Secretaria Municipal de esportes para eleger a diretoria executiva e o conselho fiscal e aprovar o estatuto da Associação Tangaraense de Futebol Americano.

Conforme o estatuto da Associação, sua fundação se oficializa em 12 de abril de 2010, criada por membros da comunidade tangaraense e simpatizantes. Entidade esportiva sem fins econômicos com sede no município de Tangará da Serra, estado do Mato Grosso.

A inclusão de jogadores foi considerada difícil, pois segundo Luan, “o medo do novo atrapalhou um pouco”. Os Tangaraenses não conheciam o esporte, porém “muita gente se interessou pelo time” (EZER, 2015). Para a entrada de novos jogadores, foram realizados vários tryout.

A equipe ainda não conseguiu resultados positivos em jogos e junho de 2015, passava por uma reestruturação, na convocação de novos atletas e formação de uma nova diretoria executiva. Assumiu a presidência em 2015, mas sem ainda uma eleição, Daniel Ângelo Zeni 14, que frisou um momento difícil de consolidação da equipe. O presidente destacou que no início o esporte era mais conhecido, havia maior marketing e pessoas públicas que apoiavam. Consequentemente havia mais jogadores e pessoas interessadas. Ao final de 2013, o time “deu uma caída”. No entanto, mesmo ao desconhecimento, ao preconceito, percebe recepção positiva da sociedade. Justifica essa afirmação citando a média de público do último jogo, cerca de 800 pessoas, maior que o futebol “brasileiro”: “porque tem vezes que o pessoal não entende nada do que está acontecendo, mas tem a curiosidade e a vontade de ir lá assistir o jogo. Ela participa e interage. A gente também trás um locutor para ir explicando o que está acontecendo. E isso acaba sendo interessante para o pessoal entender o esporte”. Isso certamente cria condições para o entendimento do esporte como elemento cultural passível de ser consumido em larga escala com o passar do tempo.

14 – ZENI, Daniel Ângelo. Daniel Ângelo Zeni: Depoimento [jul. 2015]. Entrevistador: Igor Alexandre da Silva Bueno. Cuiabá, 2015. 1 arquivo.mp3 (13:35 min.). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso”

Essa “caída” do futebol americano em Tangará, demonstra que este ainda está se constituindo como esporte, visto as dificuldades financeiras e de atletas comprometidos em jogar pelos valores da competição e não apenas como atividade de lazer no tempo livre. O fato do município ser “pequeno” pode ser um motivo que dificulta a inclusão de pessoas com perfil para prática, no entanto, mesmo as dificuldades, o presidente demonstrou determinismo na manutenção da equipe, especialmente pela paixão que construiu pelo esporte: “quando a gente gosta, a gente acaba se dedicando além do esperado”. Uma fala que demonstra as emoções que Elias (1992) descreve como liberadas e possibilitadas pelo esporte.

Rondonópolis Hawks

A Associação Atlética Rondonópolis Hawks foi fundada em 22 de junho de 2013, mas a prática do futebol americano por seus membros fundadores já ocorria no município de Rondonópolis desde 2007.

Segundo o Sergio Luís de Almeida 15, fundador da equipe, foi pelo canal de esportes da televisão fechada que conheceu o futebol americano. O mesmo nunca praticou e nem acompanhou outro esporte, mas quando viu o jogo de futebol americano, afirma que se apaixonou. O primeiro jogo que assistiu foi a final do Super Bowl de 2006, entre o Chigaco Bears e Indianapolis Colts. A primeira jogada da partida foi o que excitou, escolhendo ali a equipe para quem torceria: “não foi o jogo em si, foi a primeira jogada do jogo. Foi um retorno de kickoff para Touch Down, foi o primeiro da história, a primeira jogada” (ALMEIDA, 2015).

15 – ALMEIDA, Sérgio Luís. Sergio Luís de Almeida. Depoimento [ago. 2015]. Entrevistadora: Neuza Cristina Gomes da Costa. Cuiabá, 2015. 1 arquivo.mp3 (24:01 min.). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso”

Após o jogo, o fundador do Hawks pesquisou na rede social do Orkut comunidades sobre o futebol americano, encontrando o Cuiabá Arsenal. Entrou em contato com os jogadores e em 2007, se deslocou para Cuiabá, a fim de assistir a segunda competição de futebol americano do estado, o Pantanal Bowl II. Foi a partir desta vivência que surgiu o interesse pela prática do esporte. No entanto, várias dificuldades apareceram, pois não tinha muito conhecimento das regras e material de treino.

Foi após uma palestra com Orlando, fundador do Cuiabá Arsenal, na cidade de Rondonópolis que iniciaram a “brincadeira”. Na época, Sérgio e seus amigos tinham 15 anos de idade. Eram jovens implementando uma nova prática esportiva. A difusão deu-se pelo convite pessoal e pelo Orkut de colegas para a prática no final de semana. Uma das dificuldades citadas por Sérgio foi o pouco conhecimento das pessoas sobre o esporte:

[…] oito a nove anos atrás não era muita gente que assistia. Ai o amigo da minha irmã, brincava numa caixa de areia na praça e a gente foi lá. Ele tinha aquela bolinha, tipo miniatura e eles brincavam lá. E a gente foi lá e começou a brincar com eles. No começo a gente queria ser um time, mas ninguém sabia nada de técnica, era bem plano futuro (ALMEIDA, 2015).

Nos anos iniciais, os amigos apenas “brincavam”, a média era de seis meninos por final de semana. Por volta de 2010, o grupo aumentou e visto ao avanço no esporte no Brasil, com o primeiro campeonato brasileiro organizado pela entidade nacional do esporte (AFAB), almejavam um time.

Verifica-se novamente o processo de esportivização. A “brincadeira” e o jogo sendo transformados em esporte. Os “meninos” também apaixonados pelo esporte, com apoio do Orlando e da equipe do Cuiabá Arsenal, buscaram elaborar normas e regras, sistematizar os treinos, atrair atletas para consolidação de uma equipe, uma equipe para competir.

Em 2011, segundo Sérgio, o local de treino mudou. Foram para um campo de futebol num bairro afastado do centro da cidade e segundo o fundador, “foi ali que começou realmente”. Divulgaram o novo local de treino e no primeiro dia, compareceu cerca de 40 pessoas. Não havia técnico e nem muita técnica. Os próprios jogadores passavam os treinos e depois havia o “rachão”, o treino-jogo.

A ideia da Associação foi surgindo. Em 2012, quando começou os trâmites do registro, o fundador mudou-se para Cuiabá e ingressou na equipe do Cuiabá Arsenal. Um dos jogadores, também jovem, tomou a frente e pela experiência do trabalho com sua mãe numa loja comercial, iniciou a oficialização.

O nome da equipe recebeu influência da ideia norte-americana:

O nome foi pensado mais de uma vez, queria representar a cidade. Igual nos Estados Unidos, geralmente é a cidade, então o nome tem que estar no meio da cidade e queria um nome que soasse bem com o nome da cidade. O primeiro era Rondonópolis Rangers, que era tipo para manter o som do R, depois pensamos em Rondonópolis Guará. Toda semana tinha um nome, até que Hawks foi aprovado (ALMEIDA, 2015).

As participações em jogos da equipe foram no Circuito Nacional de Flag Football e no Torneio estadual fullpad em 2014. No circuito de flag a equipe não conseguiu colocação significativa, mesmo que na etapa regional havia ficado com a segunda colocação. No estadual fullpad de 2014 a equipe foi vice-campeã. Hawns participou da primeira edição do campeonato estadual, ficando em quarto lugar.

Sorriso Hornet’s

A Associação Sorrisense de Futebol Americano, cujo nome fantasia é Sorriso Hornet´s, foi fundada no dia 10 de junho do ano de 2015 por Ângelo José dos Santos. O nome fantasia homenageia a cidade, acompanhado de um nome de língua inglesa “Hornet’s”, que significa zangão. As cores da equipe são amarelo, preto e cinza.

Foi na cidade de Sinop, próxima a Sorriso, que Ângelo 16 conheceu e se aproximou desse esporte:

[…] a partir daquele momento que eu vi o esporte, que eu vi o pessoal treinando, eu já me interessei, apesar de não conhecer ainda o esporte. Quando eu cheguei em Sorriso comecei a assistir algumas partidas, pesquisei no Google, no Youtube… E aí a partir desse momento eu acabei gostando do esporte, entrei em contato com o pessoal de Sinop pra ver se dava pra mim treinar e a partir desse momento começou a surgir o futebol americano em mim.

16 – SANTOS, Ângelo José dos. Ângelo Jose dos Santos. Depoimento [ago. 2015]. Entrevistadora: Erica Martins da Cunha. Cuiabá, 2015. 1 arquivo.mp3 (17:09 min.).

Por três anos Ângelo treinou na equipe do Sinop Coyotes, deslocando-se todos os finais de semana. No entanto, cansado de deslocar-se junto a conflitos familiares, causado pelo risco da rodovia durante o trajeto, Ângelo afirma que decidiu parar os treinos em Sinop e criar uma equipe em Sorriso, pois não queria ficar sem praticar o esporte.

Com apenas seis pessoas, Ângelo afirma que o Sorriso Hornet´s começou. Não foi fácil, afirmou o mesmo: “um jogo que precisa de pelo menos 22 atletas ser treinado por apenas seis é desmotivador”. No entanto, mesmo diante do desânimo, Ângelo e seus colegas elaboraram um plano para captação de jogadores: “em 2013 a gente tinha seis, sete atletas no time e quando a gente treinava aqui no campo sem perspectiva nenhuma, sem equipamento nenhum, o povo pensava que a gente era um bando de loucos se batendo, né? “O que aqueles loucos tão querendo?” (SANTOS, 2015).

Mesmo com poucas pessoas envolvidas nesse início, Ângelo afirma que o apoio dos familiares foi fundamental para que a equipe surgisse. O futebol americano mesmo com o estereótipo de ser violento, teve sua pratica incentivada pelos familiares daqueles que começaram. Assim, convidaram os familiares, primos, irmãos, tios para compor a equipe. Em 2014, abriram um tryout, com forte divulgação em escolas do município.

Para os treinos, o time teve apoio da equipe do Sinop Coyotes e do Cuiabá Arsenal com clínicas de treinamento. Não houve apoio financeiro, sendo os equipamentos e materiais de treino comprado pelo próprio presidente, ou individualmente por cada atleta.

Mesmo sem registro por dois anos, a equipe contou com um esboço de diretoria para representação. Por ter sido o fundador, Ângelo foi escolhido como o primeiro presidente, tomando decisões importantes para a consolidação da equipe. Com o registro em cartório como associação esportiva os poderes foram distribuídos.

O Sorriso Hornet´s foi o terceiro colocado no primeiro campeonato estadual em 2015 e participou da Liga Nacional de futebol americano também em 2015, organizada pela CBFA, para equipes em consolidação. Não obteve vitórias na competição, mas com “experiências”, segundo fundador e presidente, para evoluir em 2016.

Federação Mato-Grossense de Futebol Americano (FMTFA)

A FMTFA é parte importante da esportivização do futebol americano em Mato Grosso, pois considerando a esportivização como a crescente burocratização do esporte, elaboração de normas e regras, bem como a constituição de associações e federações, esta federação constitui um marco para esse campo esportivo.

Em 2013, quando se deu a primeira reunião com a possível diretoria da Federação, os membros fundadores seriam o Cuiabá Arsenal, Cuiabá Angels, Tangará Taurus e Sinop Coyotes. Apesar do Estatuto ter sido aprovado e a diretoria da Federação formada, até o início de 2016 não houve o registro em cartório.

Segundo Júlio César Garcia 17, ex-jogador do Cuiabá Arsenal, escolhido como representante da Federação e presidente para o primeiro mandato, a ideia de criar a federação advém de alguns jogadores do Cuiabá Arsenal atuantes em organização de eventos e jogos:

A ideia da Federação surgiu há alguns anos pelos jogadores do Cuiabá Arsenal que de uma forma ou outra já participavam da organização de jogos e até mesmo da diretoria da AACA (Cuiabá arsenal). O objetivo maior era em divulgar e disseminar o esporte dentro do estado, mais o principal foco pela falta de apoio e condições para a pratica do fullpad, era em colocar o flag uma modalidade que não exige muitos investimentos e proporciona muitas pessoas a participarem.

17 – GARCIA, Julio César. Julio César Garcia. Depoimento [fev. 2016]. Entrevistadora: Neuza Cristina Gomes da Costa. Cuiabá, 2016. (Entrevista digital). Entrevista concedida para o Projeto de pesquisa “A esportivização do futebol americano em Mato Grosso”.

Federação organizou em 2014 um campeonato de final de semana, intitulado de “Pantanal Bowl” com participação do Cuiabá Arsenal, o campeão do evento, Sinop Coyotes, Rondonópolis Hawns e a junção do Tangará Taurus e Sorriso Hornet´s, devido poucos atletas disponíveis para participação. O campeonato teve alguns problemas durante os jogos, culminando com a desistência da equipe de Sinop, de Tangará e Sorriso, ficando a final sendo decidida entre Cuiabá Arsenal e Rondonópolis Hawks. Apesar das contradições, um dos resultados esperados foi alcançado com a divulgação do futebol americano no estado.

Em 2015, reuniram-se junto à direção, representantes das equipes mato-grossenses para organização do primeiro campeonato estadual de futebol americano, que aconteceu no primeiro semestre, com divisão em norte e sul. Sinop Coyotes, Sorriso Hornet´s e Tangará Taurus compuseram a divisão norte e Cuiabá Arsenal e Rondonópolis Hawks a divisão sul. O Cuiabá Arsenal consagrou-se campeão, numa disputa contra o Sinop Coyotes em Sinop. Hornet´s ficou com a terceira colocação.

Para 2016, a Federação planejava outro formato de jogos, com a disputa de todos contra todos. Segundo Júlio, o campeonato estadual de 2015 atingiu os objetivos propostos, atingindo uma média de público de 1500 torcedores nos estádios e também divulgou através da mídia o esporte (GARCIA, 2016).

Tecendo uma análise

Como já explicitado anteriormente, o futebol americano em Mato Grosso se desenvolveu mais pela motivação e persistência de um ator com o gosto pelo esporte, do que outra maneira. Claro que o cenário nacional colaborou e também foi importante, entretanto mais para o Cuiabá Arsenal, equipe pioneira. As demais equipes nasceram no espelho desta, que com pouco tempo de existência ganhou destaque nacionalmente, especialmente, pelo capital social do seu fundador.

Verifica-se na criação das equipes a influência original do esporte, a imitação dos moldes norte-americano tanto na escolha dos nomes, quanto ao formato de seleção de jogadores e treinamento. O que pode nos incitar a influência colonial, conformada no eurocentrismo, mas que em tempos de globalização é difusa, caracterizando um pós-colonialismo que Fernando Colonil 18 (2005) discute como “globocentrismo”. Uma evidencia de como o esporte reflete os valores sociais e culturais em determinando tempo e espaço, mas que não será aprofundada aqui por não ser o foco do estudo.

18 – Segundo Colonil (2005), vive-se a globalização neoliberal que trata-se da livre circulação de bens primários num mercado aberto e produção não regulada pelo Estado, diferentemente da globalização colonial que necessitava de um controle político direto para organizar a produção de bens primários e regular o comércio dentro de mercados restritos. A globalização neoliberal refere-se à redefinição da relação entre Ocidente e seus outros, o que leva a mudança do “eurocentrismo” para o “globocentrismo”. No entanto, esconde discursos e a presença do ocidente que continua o domínio dos outros, mas numa forma menos identificável no globo. Assim, a globalização apresenta uma continuidade em relação ao colonialismo, e a mesma crítica ao eurocentrismo cabe aqui. “Na medida em que a globalização funciona reinscrevendo as hierarquias sociais e padronizando as culturas e os hábitos, esta funciona como uma modalidade particularmente perniciosa de dominação imperial” (p.59).

A análise da história do futebol americano em Mato Grosso concorda com os argumentos de Elias (1992) da passagem de uma prática de lazer para algo mais estruturado, como uma modalidade esportiva em pleno processo de industrialização, espetacularização e empresariamento. Na fala dos fundadores o caráter “brincadeira” do futebol americano expressa uma atividade em um tempo livre, com ausência de um rigoroso tempo cronometrado, de regras institucionais e de remuneração. O início do futebol americano como um lazer vai além destes aspectos, pois foi também uma nova maneira de se divertir entre amigos e sentir emoções.

Percebe-se que os campeonatos disputados pelo Cuiabá Arsenal, de caráter nacional e mais recente o campeonato estadual, por todas as equipes formadas no estado, além de evidenciar a institucionalização do futebol americano como esporte, transformaram-se cada vez mais em formas de agrupamentos que asseguram a representação e a defesa dos interesses dos praticantes e, ao mesmo tempo, de patrocinadores, promotores e vendedores de bens e de espetáculos da indústria do entretenimento ligada ao esporte.

Como Laguillaumie (1978) e Marchi Jr (2001) descreveram, o esporte se inscreve no marco das relações capitalistas, tornando-se uma mercadoria extremamente valiosa e consumida globalmente. Este processo pode ser verificado no desenvolvimento do futebol americano em Mato Grosso.

Apropriado cada vez mais pela indústria cultural, o futebol americano vem se tornando espetacularizado. Esta espetacularização é uma busca pelos gestores das equipes e foi pelos fundadores no momento em que se decidiram pela profissionalização do esporte que praticavam como “brincadeira de final de semana”.

Neste sentido, verifica-se uma expansão do futebol americano, o que gerou, e ainda gera vários questionamentos, das quais algumas hipóteses podem ser desenvolvidas para apresentar uma possível resposta, não definitivas, das questões apresentadas ao longo do texto. Como possíveis respostas pode-se dizer que o gosto esportivo foi desenvolvido por agentes que detinham um determinado capital cultural e simbólico para a implementação e desenvolvimento do futebol americano inicialmente em Cuiabá e posteriormente disseminado pelo Mato Grosso, sendo os principais fatores para o desenvolvimento esportivo. E que cada nova edição de campeonatos o número de público participante e pagante vem crescendo, conforme demonstram as matérias apresentadas no decorrer do trabalho. Isso são indícios que o campo do esporte, futebol americano, vem se estruturando e apresentando também como agente estruturante (BOURDIEU, 2004).

Considerações finais

Pela descrição histórica das equipes de futebol americano em Mato Grosso, evidencia-se o processo de esportivização em curso, especialmente com a busca pela profissionalização e espetacularização desta modalidade esportiva. Processo este que reflete o cenário nacional evidenciado pela organização da estrutura de um esporte com ligas, confederações e federações, caracterizado pela passagem dos jogos para esporte efetivamente. Ou seja, a passagem de ações lúdicas para um processo mais profissional.

A busca pela crescente organização das equipes de um caráter mais profissional e menos amador foi perceptível pelos depoimentos dos entrevistados também a partir de observações empíricas no campo ao longo da pesquisa. No cenário mato-grossense pode-se afirmar que esta é a pretensão dos gestores e praticantes do futebol americano. Esporte que deixa de ser uma atividade apenas de lazer (para seus praticantes) e passa a ser praticado de uma forma institucionalizada, mas sem por isso, deixar de provocar sensações e emoções, sem deixar de ser excitante. No entanto, percebe-se a dificuldade em cumprir regras e disciplina em uma atividade não remunerada, o que ocasiona a desistência de muitos atletas. Mesmo com esse acontecimento, vê-se que o futebol americano vem crescendo no estado, conquistando torcedores que cada vez mais passam a frequentar os estádios, comprar camisas e adereços das equipes. O campeonato mato-grossense é uma forma de difundir o esporte e captar ainda mais jogadores, bem como uma forma de visibilidade na atração de patrocinadores.

Somando-se com as transformações internas de cada equipe juntamente com uma estruturação do cenário estadual e nacional, o processo de esportivização é algo presente na análise do esporte Futebol americano e constituem base para o desdobramento de muitas pesquisas no sentido de acompanhar esse processo, pois compreender o esporte é um meio de compreender a sociedade contemporânea na qual vivemos. Temos consciência dos limites deste artigo, mas acreditamos que estamos contribuindo com o campo acadêmico dos estudos sociológicos sobre o fenômeno esportivo no Brasil, por isso, certamente futuras investigações serão realizadas sobre este mesmo tema, tendo obviamente enfoques diferentes.

Referências bibliográficas

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  10. LAGUILLAUMIE, P. Para uma crítica fundamental del deporte. In: Berthaud, G., Brohm, J.M. Deporte, cultura, repression. Barcelona: Gustavo Gilli, 1978.
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ESTA É UMA REPRESENTAÇÃO FIEL DA PUBLICAÇÃO ACADÊMICA DE COSTA; BUENO; RODRIGUES. O ORIGINAL EM PDF PODE SER BAIXADO CLICANDO AQUI: O FUTEBOL AMERICANO NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICOSSOCIOLÓGICA